Capítulo I - Culpa

Hoje já faz um mês que freqüento as sessões com a Dra. Karen Smith e não vejo melhora alguma no meu ‘quadro psicológico’, que segundo ela é de uma “maníaco-depressiva”, ou simplesmente “bipolar”, como ela diz preferir denominar pessoas com os mesmos sintomas que eu.
Segundo ela, o trauma que o acidente me causou é que desencadeou essa chamada “doença psicológica”.
Mas sinceramente: eu me sinto super bem!
Tirando o fato de ter sido afastada do trabalho por dois meses por prescrição médica, de ter desintensificado a minha vida social e ter passado praticamente todo o verão sozinha em casa com meu gato e alguns filmes bem tristes e dramáticos, eu estou me sentindo bem.
Mas graças a minha mãe, eu não podia deixar de ir ver a Dra. Smith. Porque ela sempre ligava poucos minutos antes de começarem as sessões e perguntava à recepcionista se eu realmente estava no consultório.

- Olá Elizabeth, como se sente hoje?
- Ótima como sempre. – disse com sarcasmo
- É mesmo?! Não me parece. Fale-me mais sobre seus dias...
- Sinceramente Karen, com todo respeito, mas essa é a oitava vez que nos vemos em um mês, sendo uma hora por dia; como então a senhora pretendo me conhecer mais do que eu mesma, que convivo comigo há quase vinte e cinco anos?
- Você acha que se conhece bem Elizabeth?
- É claro! Se eu não me conhecer, quem vai?
- Quem sabe a sua família, seus amigos...
- Que amigos? Os amigos que eu tinha eram a Anne, o Alex e o Patrick. E caso a senhora não se lembre. Eu os perdi há quase um ano.
- Humm, e o que você sente desde então?
- Vazio... Solidão... Tristeza...
- E o que mais?
- Culpa...
- Elizabeth, como já foi dito e esclarecido milhares de vezes, você não teve culpa de nada com relação ao acidente que aconteceu. A culpa foi do assaltante que estava fugindo da polícia e jogou a moto sobre o carro de Patrick. Então graças ao susto, Patrick perdeu o controle da direção e vocês sofreram um acidente. Quanto antes você se livrar dessa culpa que não é sua, mais rápido você se sentira realmente bem.
- Mas doutora, Anne estava grávida, e Alex tinha acabado de pegar um trabalho dos grandes. Se eu tivesse insistido mais, eu teria guiado o carro levando-os para casa em segurança, ao invés de Patrick que já estava um pouquinho alterado pelo álcool e então nada disso teria acontecido.
- Teria sim Elizabeth, talvez não da mesma forma, mas teria. As coisas acontecem quando tem que acontecer. E você não teve culpa de nada. Aceite isso. Nada que você fizesse naquela noite mudaria o seu destino ou o deles. E o destino deles foi morrer em família: Patrick, o bebê, a esposa e o cunhado.
- E porque eu também não morri? Porque sobrevivi e tive que ver os paramédicos lutando contra a morte tentando salvar todos eles bem na minha frente?
- Porque tinha que ser assim Elizabeth. Não se culpe mais, apenas reaja. Se você sobreviveu, é porque é para você estar viva. Então viva Elizabeth.

Nenhum comentário:

Postar um comentário