Eros está me olhando tristonho enquanto eu tomo meu remédio pra dormir de pé na cozinha.
Meu corpo parece muito magro no reflexo do vidro da porta da cozinha. Meu pijama parece ser três números maior do que eu realmente visto agora.
Tudo que Karen me disse na tarde passada ainda roda no meu estômago me causando uma azia sem fim.
Percebi que tudo a minha volta parecia meio morto depois do acidente: as violetas da varanda secaram; a grama do jardim está alta como se não morasse ninguém na minha casa há pelo menos uns cinco anos; meu peixinho se cansou de viver no lodo e já está boiando na água há pelo menos um dia; há meses que eu só peço comida pelo telefone ou como o que minha mãe traz quando vem à minha casa me visitar e eu já não vou ao mercado fazer compras há nem sei quanto tempo...
Até meu gato está diferente.
Eros já não brinca com seus brinquedos pela casa, nem vai ao jardim correr atrás dos pássaros como costumava fazer. Ele só fica perto de mim, como se quisesse me animar ou cuidar de mim. Ou como se minha tristeza o tivesse contagiado e ele já nem quisesse mais viver.
Parece que finalmente a vontade de me erguer me atingiu o senso da razão.
Mas o sono que o remédio me causa parece muito mais forte agora do que essa azia misturada com nostalgia.
Se não for pra cama agora sou capaz de dormir no chão, e morrer aqui, como as violetas.
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- Porque você não faz um diário, ou alguma coisa do tipo? Para relatar seus dias e como anda a sua vida Elizabeth. Depois de escrever alguns dias, comece a ler e reler tudo que escreveu; assim você vai se conhecer melhor e talvez vendo o que te faz mal, ou que você considera estar errado em sua vida, você consiga ‘concertar’ para poder começar a se sentir melhor.
- Não sei se tenho paciência pra isso Karen.
- Ao menos tente Elizabeth. E sobre você começar a perceber o quanto tudo está ‘morto’ a sua volta, é um ótimo jeito de começar a reagir. Se isso te incomodou tanto, tente começar a dar vida a tudo. Comece pelo que te parecer mais simples.
- Me dê um exemplo...
- Bem... Se algo te incomodou desde a última terça feira, você já deve ter tido tempo para pensar em ao menos uma solução plausível para este problema.
- Na verdade sim. Pensei em ir à floricultora comprar flores novas e voltar a cozinhar quem sabe...
- Já é um começo. Faça isso Elizabeth, e na terça que vem voltamos a nos falar. Espero que esteja melhor. Mande lembranças minhas ao Eros.
Parece tão fácil pra ela me dizer o que eu devo ou não fazer.
Pena é não ser tão fácil pra que eu faça tudo que ela me aconselha – ou ordena.
Mesmo assim tentarei seguir parte dos seus conselhos e vou começar pelo que me parece mais fácil: vou levar Eros ao veterinário hoje.
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